Discarded page from Morpheus' journal, found in his files in the Dreaming library. Reading by Lucielle.
As páginas amareladas, em constante consumo pelo mofo que o tempo estendeu, dissiparam pelos dedos de Lucielle, tão curiosos quanto o olhar arregalado ao notar a caligrafia curvada de Morpheus. O amontoar enigmático das emoções, o conforto das pétalas de lavanda, o frescor das frutas vermelhas e o delicado perfume de gerânio. Quando a bibliotecária inalou o ar daquela caderneta de capa dura, com o símbolo de um elmo carimbado por um sinete de tom terroso quanto as raízes do jardim, ela sentiu todos esses aromas de uma vez só. Embriagada, apoiou o tronco na estante de livros atrás de si, tendo a mente afogada pela voz compacta de Morpheus ao iniciar a leitura, que surpreendentemente, chegavam até o final da página.
“Éons de existência e constantemente pego-me surpreso pelo percurso que a vida toma. Talvez o Destino tenha as suas respostas, mas as suas metáforas, os murmúrios agonizantes de Desespero e o humor certamente displicente de Desejo, são os principais motivos pela minha ausência no último jantar de família. No século das Revoluções, eu me lembro de um baile, o patético evento em que a Morte convocou a minha presença para mais uma etapa de seu planejamento para que eu me conecte com os humanos. No entanto, o convite me forneceu mais do que a irritação auditiva das irracionais risadas e o borbulho trivial do champanhe. De nada disse à Morte, mas escrevo neste diário as minhas conclusões finais, após tantos anos. Viver é como dançar. Passos em falsos, piruetas exorbitantes e movimentos envolventes. Quedas, tão densas que os músculos estremecem com o impacto. Um ritmo atrás do outro, e curiosos olhares torcendo para se deliciarem com a falha naquela melodia que você não esperou que fosse tocar. Até mesmo para os Perpétuos, como eu. Mas os sonhos estão vinculados a esperança, e a esperança é o motivo da música continuar a tocar. Talvez era isso que Morte desejou me mostrar todos esses anos. Em como eu, o Sonho, sou o Perpétuo mais presente na vida dos humanos. Em como somos parecidos. Afinal, o que move um mundo se não for as infinitas possibilidades de sonhar?”