𝘈𝘵𝘦𝘯𝘤𝘪𝘰𝘴𝘢𝘮𝘦𝘯𝘵𝘦, Mar.


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Sento-me, mar, a ouvir-te. Te sentarias tu, mar, para escutar-me?

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Não se apaixone por mim, não me ame e nem ouse dizer que gosta de mim. Não porque eu não sou boa para ti, mas porque amo demais, eu gosto demais, eu quero demais. Tu não vai aguentar a minha intensidade, a minha profundidade. Tu vai querer fugir, e eu vou ficar naufragando no meu próprio amor, sozinha. 
Então jamais, nunca, diga que me ama. Pois se for me amar, que seja para ficar, que seja para ficarmos no mesmo tom, na mesma cor. Não ouse dizer que me amas e partir de meus braços, assim eu morro. 

— Atenciosamente, Mar.




Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já.
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida.
Saudade é sentir que existe o que não existe mais.
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam.
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.




Tu me quebrou. Não que eu não esperasse isso, é que teus olhos azuis me diziam outra coisa, coisas que me fez acreditar no diferente. Quando lembro de ti, me corto por dentro, meu peito grita e minha voz não saí, eu não sei por quê. Talvez, em algum momento, eu te esqueça. Mas agora, eu só finjo te esquecer, porque assim, no fundo do peito, eu não sou capaz de te fazer feliz. 

— Atenciosamente, Mar.




Eu sinto teu cheiro na noite vazia, o cheiro confortável que tanto amei. Sinto teus beijos nas noites mais frias, beijo quente que eu nunca reclamei. Recordo-me das tuas mãos, confortáveis como ninguém outro. Me acalenta o peito lembrar de nós, mas me molha os olhos ver que acabamos sós.

— Atenciosamente, Mar.


Teus lábios me dizem coisas, coisas que, antes, adoraria escutar. Mas, agora, teus olhos não mentem mais e eu sei que aqui, nunca mais vai ser o meu lugar. Porque sou mar, condenada a navegar sem o teu amar para me amparar. 

—
Atenciosamente, Mar.




Eu te avisei, meu amor. Disse-te que me amar seria como afogar, por que insistiu? 
Eu te disse que eu era profunda demais para ti, barco raso, nadar. Eu te disse que nosso amor seria impossível, mas teimoso, tu quiseste. 
Não me culpe pelos danos que nosso amor causou, não quando te avisei os riscos e ainda assim tentou. 
Não me culpe pela profundidade das minhas águas, tu sabias que se afogaria e ainda assim entrou. 
E como antes, o nosso amor naufragou. 


— Atenciosamente
, Mar.








Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.








Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.





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