Me sento no chรฃo escuro do quarto, contemplando o silรชncio nรฃo apenas do ambiente, quanto o vazio que habita todo o meu ser. Sinto o meu peito gelado, como se uma compressa de รกgua fria estivesse contra este, e em razรฃo disso todo o meu corpo estivesse frio. Junto ao chรฃo, sou parte da mobรญlia do quarto ou, praticamente, inexistente.
Talvez um รณleo fosse รบtil para tentar aquecer o meu peito, mas percebo que mesmo esfregando a derme, as chances de aquecรช-lo sรฃo baixas. O problema nรฃo estรก no exterior - como sempre. O que รฉ uma pena.
Com tal constataรงรฃo, nรฃo evito uma risada. Um pequeno sorriso desponta dos meus lรกbios, enquanto os olhos fitam o nada, cientes de tudo que acontecia antes, durante e depois.
ร natural de mim repetir as palavras, os momentos e os sentimentos. Talvez por isso eu os conheรงa bem.
Tento tocar, inutilmente, o vazio no meu peito.
Posso sentir a minha mรฃo afundando neste, quase como se pudesse entrar para dentro de mim mesmo.
E, nesse instante, a risada se torna a mais pura seriedade. Os olhos, enfim, ficam รบmidos, mas nenhuma lรกgrima cai.
Nessa altura do campeonato, รฉ quase impossรญvel chorar.
Encaro a minha mรฃo na penumbra.
O que poderia haver, de tรฃo especial, nessa ausรชncia de sentimento?
De que maneira eu poderia fazer... Voltar a vida, a ter som?
Estou tรฃo acostumado a viver no mudo.
Seguro a minha prรณpria mรฃo com a outra, as aperto e, por fim, me abraรงo.
Toco a mim mesmo na minha prรณpria escuridรฃo.
E digo...
Tenha paciรชncia contigo mesmo, meu amigo.
Atรฉ o universo pode ter surgido de um vazio.
Atรฉ o vazio รฉ algo, afinal.